Aqui no Canadá eu só obedeço. Sigo ordens e abaixo a cabeça pra (quase) tudo o que me mandam. Como já disse sou estudante de pedagogia, e como parte da minha formação preciso trabalhar em 4 escolas (dois meses em cada) como “professora estudante”, não tem assistente, estagiária, todo mundo tem a mesma importância. Estou na primeira escola e uma das coisas que sinto muita diferença com o Brasil é a relação das professoras com as crianças. E é aí que eu vou perdendo cada dia um pouco da minha nota de “profissionalismo”.

Uma frase que as professoras falam muito é: “respeite o corpo do seu amigo/amiga”, ou então: “espaço!”. A relação com o corpo do outro é muito importante e muito delicada. No Brasil quando uma criança bate na outra eu sempre falava: “a gente não bate no amigo, a gente abraça, faz carinho”. Aqui eu JAMAIS poderia falar isso, o toque é muito invasivo e as crianças precisam entender isso bem cedo. Não se encosta no outro sem a autorização dele, se eu quiser abraçar uma criança, preciso perguntar se ela aceita, e precisa ser um caso bem raro, ninguém abraça aqui.

O que é um caso raro? Uma criança que levou uma mordida pode ser abraçada (se ela deixar), pois ela está com dor e chateada. Uma criança que está sentindo falta da mãe NÃO pode ser abraçada pois ela precisa aprender a acalmar seu corpo sozinha. Então vamos lá, se eu abraço uma criança que está chorando? Eu Elisa levo um sermão que também me da vontade de chorar, rs, brincadeira. Se eu abraço uma criança que está chorando ela vai entender que precisa do meu abraço todas as vezes que seu corpo estiver frustrado, consequência: ela vai transferir sua sua calma para uma terceira pessoa, que não ela mesma, vai se sentir insegura e dependente de um adulto. A criança precisa aprender a se acalmar sozinha desde cedo, empoderar-se e sentir-se capaz de controlar o seu corpo.

Mas então o que eu posso fazer? Posso lembrá-la (sem encostar, somente com palavras) que o seu corpo está seguro, que ela consegue se acalmar sozinha: respirando fundo, procurando outras coisas ou amigos para brincar. Posso encorajá-la a encontrar um brinquedo, mas sempre repetindo que o corpo dela está seguro, que ela não está em perigo,  e racionalmente explicar que a mamãe ou o papai vão vir buscá-la no fim do dia.

Complexo? Muito! Concordo? Em partes. Pessoalmente acredito que o afeto esteja extremamente ligado a educação, estamos falando de crianças de 2 anos e meio. Mas, ao mesmo tempo, não queremos crianças “sombras” nossas, a independência é uma característica super importante para um toddler. Então qual o meio termo? Me parece que tantas regras não funcionam na educação infantil, cada caso é um caso, cada criança é uma criança. Mas como eu disse no começo, aqui eu só obedeço, só me atrevo a discordar quando acho que passa do limite, o que não significa que me dêem ouvidos, rs.

O mais engraçado é que quando aparece uma criança latina na minha classe e os pais me conhecem, sinto uma sensação de alívio por parte deles, quase soltam um: “Ufaa, você é brasileira?”. É, acho que só quem mora aqui entende o que eu to falando, é muito diferente.

(function(g){g.__ATA.initVideoAd({format: 'inread', sectionId:1265303015});})(window);
Advertisements

4 replies on “Educação sem (muito) afeto

  1. Ola Eliska! Confesso que fiquei um pouco preocupada pois vou mudar para Toronto ano que vem e minha bebê terá 3 aninhos.. que medo de escolher a creche e ela nao se adaptar. Se vc tiver alguma para indicar próxima a Scarborough eu pretendo morar por ali e amaria receber alguma dica de creche sua. Esse assunto é tao dificil para nós que pretendemos nos mudar.. obrigada pelos posts e dicas.

    Like

    1. Oi Samira, eu imagino, é um assunto bem delicado! Tenho uma amiga que trabalha em uma child care em Scarborough. Vou perguntar pra ela e te volto com uma resposta! Mas fica tranquila que criança se adapta muito fácil, ainda mais aqui que tá cheio de imigrante, eles estão bem acostumados. A gente que custa um pouco mais, rs.

      Like

  2. Olá Elisa! Meu filho acabou de fazer 15 anos, já domina o inglês e eu gostaria de envia-lo para aperfeiçoar e desenvolver mais a conversação. Pela sua experiência como professora brasileira e estudante ai o que você indicaria? Voce conhece uma escola ou universidade que aceite? Agradeço se puder me orientar!

    Like

    1. Olá Selma! Não conheço o seu filho, mas o que você acha de uma escola de inglês dentro de um college? Tem muitas opções aqui no Canadá, sei que na próproa George Brown existem programas assim. Busque por programas que não sejam muito acadêmicos (que são mais pesados e normalmente preparatórios para faculdade), escolha os regulares. Qualquer coisa, me procure! Beijos!

      Like

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s